CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DA REPÚBLICA

Não é do nosso hábito, publicar artigos de terceiros aqui neste espaço, mas diante da relevância da matéria,publicada no site da revista Amanhã, escrita de forma tão brilhante, pelo jornalista Marcos Graciani que também é sommelier e blogueiro, decidi compartilhar com nossos leitores, para que mais apreciadores e defensores do vinho brasileiro, tomem conhecimento e também compartilhem, com seus amigos. Quem sabe chega no Presidente?


Caríssimo Presidente, faça um favor ao vinho nacional

Baixe um decreto determinando que a bebida se torne alimento e transforme a vida de todos os brasileiros

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

Tenho um amigo que – vez ou outra – gosta de publicar suas cartas abertas. Esse humilde blogueiro, jornalista e Sommelier resolveu usar a mesma estratégia. Faço isso apenas por ser um defensor do mundo vinícola e acreditar que essa incrível bebida transforma vidas, aproxima pessoas, revigora e faz com que respeitemos todo e qualquer tipo de cultura. Eis a missiva – ou melhor, o bilhete, afinal, o bom comunicador ao menos tenta condensar o recado em poucas frases. 

“Caríssimo Presidente,

Peço que nos próximos dias o Senhor faça um favor ao vinho nacional: baixe um decreto determinando que a bebida se torne alimento e transforme a vida de todos os brasileiros. O nefasto gole de quase 60% de impostos por garrafa tem sufocado o setor vinícola de Norte a Sul há décadas. Com a inserção do vinho na cesta básica de todo e qualquer consumidor, transformaremos essa grande Nação. Afinal, como a Europa descobriu há muitíssimo tempo, a bebida é alimento por aquelas terras. 

Cá entre nós, o Rio Grande do Sul, maior produtor de vinhos finos no Brasil, poderia ter encampado a vanguarda desse pleito há mais de uma década, mas não fomos corajosos o suficiente para defender essa bandeira que poderia ter sido uma mola propulsora para o segmento. Fechado esse parêntese tão comezinho a nosso respeito, o senhor pode nos dar a satisfação de voltarmos a estar no centro das atenções do país – e quem sabe de todo o Planeta. Caso o Senhor esteja presente na abertura oficial da Festa Nacional do Vinho (Fenavinho), datada para o próximo 14 de junho em Bento Gonçalves – a Capital Nacional do Vinho (tal qual costumamos fazer em algumas solenidades por aqui a comemoração iniciará na véspera) –, baixe um decreto no dia anterior ou na data específica determinando que a bebida se torne alimento tal qual já é na Europa há muito tempo. Com isso – e com a consequente aprovação do Congresso Nacional alguns meses depois –, teremos um novo país, pois os brasileiros passarão a viver muito melhor. 

Afinal, como alguns médicos gostam de defender aos quatro cantos, a bebida, sempre tomada com moderação, faz bem à saúde. Na Rússia, inclusive, há campanhas que incentivam o hábito do vinho de modo a combater o alcoolismo, decorrência do costume da ingestão de vodka. Além do mais, vinho faz com que a gente se interesse por ter hábitos saudáveis. E conhecer outras culturas. Por consequência, respeitar as pessoas, independentemente da condução social ou crenças. Vinho também faz a roda da economia girar. Saiba, Presidente, que em tempos que as safras de vinho têm altíssima qualidade, a cadeia vinícola na Itália pode ser responsável por até 14% do PIB! E só em solo gaúcho são quase 600 estabelecimentos que fabricam a bebida. Santa Catarina também está fazendo excelente produção. E o Paraná, mais especificamente na região metropolitana de Curitiba, além do Oeste, tem acumulado progressos. Sem contar o que se faz na região Nordeste, em Minas e, pasme, até aí nos arredores de Brasília. 

Caríssimo, nesses anos todos que acompanho o setor, nunca tinha visto um Presidente afirmar que estivesse preocupado com a indústria do vinho do Sul, como Paulo Guedes relatou em 14 de maio. Ele contou que o Senhor estava angustiado com a indústria desta região que produz vinho – e mais especificamente com as relações envolvendo o Brasil, a Argentina e a União Europeia. Espero que logo tenhamos alvissareiras notícias para os vitivinicultores, ainda que exista quem defenda que salvaguardas para qualquer indústria sejam mortais. No entanto, para um setor que sempre esteve à margem da economia nacional, não se trata de um privilégio, mas uma questão de sobrevivência.”

TOURIGA NACIONAL DA LENDÁRIA SAFRA 2018

No próximo mês a Vinícola Miolo, deverá iniciar a entrega do vinho histórico, comemorativo aos 10 Anos do Projeto Winemaker, aos participantes das cinco edições já realizadas desde 2008.

O vinho é um corte de Touriga Nacional de dois lotes diferentes, dos vinhedos de Seival na Campanha Gaúcha, com inacreditáveis 15% de teor alcoólico, fruto da excepcional safra 2018, considerada a melhor de todos os tempos no Brasil, maturou 10 meses em barricas de carvalho francês de segundo uso, nos próximos dias, será engarrafado e rotulado, com o rótulo exclusivo de cada Winemaker.

Na última semana de maio, em visita as instalações da vinícola, tivemos a oportunidade de realizar uma última prova do vinho, ainda na barrica.

No visual, apresentou uma coloração rubi violácea brilhante e intransponível, no nariz, aromas de frutas negras maduras, misturam-se a notas de tostados, baunilha e especiarias, na boca é um veludo,super estruturado, ataque picante, grande acidez e final de longa duração. Lembrei dos grandes alentejanos, elaborados com esta casta portuguesa que tão bem se adaptou ao terroir da Campanha Gaúcha.      

CONTRABANDO É CRIME E QUEM COMPRA É CÚMPLICE

Na última quarta-feira, dia 29, a Polícia Federal divulgou a apreensão de mil caixas de vinhos,aproximadamente, em estabelecimentos comerciais e residenciais nos municípios de Santa Rosa e Porto Mauá no Rio Grande do Sul, por não possuir comprovação regular de sua importação.

A operação Baco que teve início em abril deste ano, já identificou o ingresso de vinhos e espumantes contrabandeados, principalmente pela fronteira do Brasil com a Argentina.

Todos sabem que contrabando é crime, mas este crime só existe, porque existe o comprador. Quem compra qualquer produto, oriundo desta prática ilegal, não paga os impostos que teoricamente serviria para investimentos em saúde, educação e segurança, além disso, contribui para o aumento do desemprego, pois os empresários legalizados que pagam altos tributos, para desenvolver as suas atividades, muitas vezes acabam reduzindo ou até mesmo fechando os seus negócios, diante da total impossibilidade de concorrer com os preços deste comércio ilícito.  

Certa vez numa roda de enófilos, um “cidadão” culto de classe média alta, se vangloriava de ter um “contrabandista de confiança” que entregava na porta de sua casa, os rótulos mais famosos do mundo, ignorando ou pouco se importando que estava sendo cúmplice de um crime.

Assim como este exemplo que citei, há um grande contingente de pessoas que compram vinhos contrabandeados, para servir aos ilustres convidados de suas festas e comemorações.

Muitos destes “respeitáveis cidadãos”, reclamam da corrupção desenfreada, em seus discursos inflamados, pedem dura punição para os corruptos. Depois, investidos na condição de donos da moral e dos bons costumes, em paz com as suas consciências, brindam com suas lindas famílias, com Champagnes, comprados do “amigo” contrabandista.

CAMPANHA GAÚCHA SURPREENDE E ENCANTA TURISTAS DO CENTRO DO PAÍS

No último final de semana, enófilos de seis importantes cidades brasileiras, participaram de um tour pela Campanha Gaúcha, para conhecer in loco, uma das regiões que mais tem se destacado no cenário vitivinícola do país nos últimos anos e que começa a despertar também para o enoturismo. 

Na primeira parada, o grupo foi recebido pela família Mercio, proprietária da histórica Estância Paraízo de Bagé, com um autêntico churrasco gaúcho,saboreado sob as sombras das árvores, bem ao estilo campeiro, acompanhado pelos maravilhosos Cabernet Sauvignon, Don Thomas y Victória, safras 2011 e 2012. Além destes, também foram provados, o espumante Don Thomaz y Victória Brut método Champenoise e o DON, um Cabernet Sauvignon, com menos extração de taninos,ótimo para tomar quase gelado.

A Estância Paraízo, possui uma história muito rica, foi fundada há 229 anos e sempre pertenceu a mesma família que veio da Ilha de São Jorge nos Açores, inicialmente para Colonia do Sacramento no Uruguai e posteriormente para a região da Campanha, onde hoje é o distrito de Joca Tavares. Sua principal atividade é a agropecuária, porém a partir do ano 2000, começou a implantação de vinhedos, para fornecer uvas à vinícola Salton. Em 2011 começa a produzir  seus próprios vinhos. No total são 5 hectares cultivados, 3 de Cabernet Sauvignon e 2 hectares da primeira Shiraz, registrada no Ministério da Agricultura. A Estância Paraizo também faz parte do projeto de Indicação de Procedência da Campanha, liderado pela Embrapa, cujo objetivo é estabelecer uma indicação geográfica para os vinhos finos da Região da Campanha.

A Capela de São Jorge, na foto, foi construída em 1916, pelos 3 filhos do Coronel Thomaz Mercio, para abrigar os restos mortais do pai.

Vale a pena ouvir a história completa, contada pelo atual proprietário, Thomaz Alves Pereira Mercio, pertencente a nona geração da família e atual proprietário da Estância Paraízo! 

O próximo destino,  foi a Miolo Seival Estates, no município de Candiota, uma das gigantes da região, com quase 200 hectares de vinhedos,onde são produzidos anualmente mais de 1 milhão e 500 mil garrafas, entre vinhos tintos, brancos e espumantes, desde rótulos da linha de entrada,passando pelos reservas, até os vinhos de maior complexidade, onde se destaca a linha Miolo Quinta do Seival Cabernet Sauvignon, Castas Portuguesas e Alvarinho, Touriga Nacional  e Pinot Noir da linha Single Vineyard e o grande Sesmarias, considerado um Super Premium, elaborado somente em safras excepcionais.

A programação começou, quando a tarde já se preparava para sair de cena e a noite chegava de mansinho, para assumir seu posto, o sol ainda emitia os seus últimos raios, sobre os vinhedos, colorindo de dourado, as vinhas, os campos e os bosques no seu entorno. Na carroceria de dois tratores, o grupo circulou entre as videiras de Tannat, Petit Verdot, Tempranillo, Cabernet Sauvignon e outras tantas castas, cultivadas naquela imensidão de terras.

De volta a vinícola, uma recepção maravilhosa organizado pela Thaís e sua equipe, esperava os 18 felizardos, no espaço do varejo, onde foram degustados alguns vinhos já disponíveis no mercado e outros ainda em processo de maturação nas barricas, como foi o caso do espetacular Sesmarias 2018, um vinho que deverá fazer um enorme sucesso quando for lançado.

A noite, todos ficaram hospedados no hotel Obino, em Bagé.

No dia seguinte, depois de uma hora de viagem, o grupo chegou na Guatambu Estância do Vinho, sediada no município de Dom Pedrito.

Poucas vinícolas brasileiras tem estrutura semelhante, seus vinhos e espumantes, são de alta qualidade, o prédio da vinícola em estilo espanhol, é um primor,a paisagem campeira é um retrato da região, a equipe é muito capacitada e o atendimento, impecável. Tudo na Guatambu é pensado e planejado nos mínimos detalhes. Depois da visita pelas instalações da vinícola, guiada pela Engenheira Agronoma Gabriela Pötter, responsável pela ideia do novo negócio da família, o grupo participou de um almoço harmonizado, com cortes nobres de gado e cordeiro da propriedade, assados na parrilla, acompanhados dos vinhos de alta gama da vinícola, servidos a vontade para as mais de 100 pessoas, vindas de várias cidades que lotavam o amplo salão do restaurante. 

A família Herman Pötter, proprietária do empreendimento, conseguiu a proeza de unir, profissionalismo,alta capacidade de gestão aos fortes valores familiares.

A Guatambu é um verdadeiro case de sucesso que está alavancando o enoturismo na região da Campanha Gaúcha.

Quase ao final da tarde de sábado, o grupo chegou em Santana do Livramento que faz fronteira com a cidade de Rivera no Uruguai, para a última visita do tour, na vinícola Almadén, a maior da região, também propriedade da Miolo.

Quem achou que a Miolo Seival era grande, levou um susto com o tamanho da Almadén, com seus mais de 500 hectares de vinhedos.

Após a calorosa recepção do Fabrício e sua equipe, o grupo embarcou num ônibus da vinícola e foi percorrer um pedaço daquele mar de vinhedos, com direito a realizar alguns minutos de poda seca e degustar espumantes, apreciando o por do sol de um lado e a chegada da lua de outro, tendo ao fundo, o emblemático Cerro do Chapéu.

Com a noite já instalada na fronteira, era hora de conhecer a estrutura gigantesca da cantina, onde são vinificadas anualmente, milhares de toneladas de uvas.

Na sequência, um cenário com direito a lua cheia nos jardins, serviu de local para os brindes com espumantes e salgadinhos.

E o tour foi encerrado, com um magnífico jantar no restaurante da vinícola, onde foram servidos pratos típicos da região: Espinhaço de cordeiro, carreteiro de charque e uma feijoada campeira, acompanhados do maravilhoso Almadén Tannat Vinhas Velhas 2015.

O tour foi um grande sucesso e a Campanha Gaúcha surpreendeu e encantou a todos, com suas lindas paisagens, sua natureza exuberante, seus vinhos de alta qualidade,uma história riquíssima e seu povo hospitaleiro.

Com certeza em pouco tempo será mais um grande polo do enoturísmo brasileiro!  

UM DOS MELHORES VINHOS PRODUZIDOS NO BRASIL NOS ÚLTIMOS 20 ANOS

No último sábado, tive o prazer e o privilégio de participar de uma degustação vertical,das sete safras (2000, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008 e 2009) de um dos grandes vinhos nacionais, produzidos nas últimas duas décadas.

Estou falando do Merlot Biografia, elaborado pela Maximo Boschi do Vale dos Vinhedos na Serra Gaúcha, que tem como grande diferencial, o seu envelhecimento, durante 10 anos nas caves da vinícola, antes de ser comercializado, ou seja, ele já chega ao mercado pronto para ser consumido, ao contrário da grande maioria dos vinhos de guarda, produzidos no mundo, que depois de comprados, ainda precisam ficar envelhecendo por um longo tempo.

Foi uma experiência incrível, degustar ao mesmo tempo, sete vinhos brasileiros, com tamanha  qualidade, cada com as suas peculiaridades, mostrando a verdadeira expressão de cada safra.

Fiquei muito feliz em constatar a vitalidade e a saúde de um vinho nacional, prestes a completar 20 anos de idade.

Não vou comentar, sobre cada um dos vinhos provados, para não estender este post, mas resumindo, apenas digo que são vinhos elegantes, estruturados, macios, equilibrados e de longa persistência,  elaborados seguindo o estilo Velho Mundo, bem diferentes de chilenos, argentinos, americanos, etc…

A partir da edição 2007, passou a se chamar  Maximo Boschi Biografia Merlot(tem também um Cabernet Sauvignon), sua produção é limitada e todas as garrafas são numeradas, nas 3 primeiras safras(2000, 2004 e 2005) foram elaborados com uvas da Serra Gaúcha, da safra 2006 em diante, passou a ser produzido, com uvas cultivadas no município de Bagé na região da Campanha.

A degustação foi realizada pela confraria Clube do Tinto de Porto Alegre, fundada há 14 anos e teve a presença de Renato Antonio Savaris, um dos proprietários da Maximo Boschi que conduziu a degustação e contou um pouco da história da vinícola.

A partir de hoje, não aceito mais críticas sobre a qualidade dos vinhos brasileiros, vindas de quem nunca tomou um Maximo Boschi Biografia.